Fim do desperdício: dez maneiras de incorporar a economia circular em um projeto arquitetônico

Artigo em colaboração com o ArchDaily

Uma economia circular é um sistema econômico que visa eliminar o desperdício e o uso contínuo de recursos. Olhando para além do atual modelo industrial extrativo de coleta e descarte, uma economia circular visa redefinir o crescimento, com foco em benefícios positivos para toda a sociedade. Implica desvincular gradualmente a atividade econômica do consumo de recursos finitos e projetar os resíduos para fora do sistema. Apoiado por uma transição para fontes de energia renováveis, o modelo circular constrói capital econômico, natural e social.

É baseado em três princípios:

  • Eliminar o desperdício e a poluição.
  • Manter os produtos e materiais em uso.
  • Regenerar sistemas naturais.

Existem várias maneiras pelas quais as empresas dos setores de construção e manufatura podem incorporar ideais do pensamento da economia circular aos campos de produção e consumo.

1. O uso de vidro como acabamento externo

À medida que o foco do projeto sustentável continua a mudar fortemente do tópico central da eficiência dos edifícios para os outros dois pilares da discussão: suficiência e consistência, a conversa sobre “renovação” pula para o primeiro plano. Quando se trata de vidro, líderes da indústria como a Saint-Gobain estão constantemente desenvolvendo maneiras novas e inovadoras de pensar sobre o potencial do material e seu uso futuro, atualizando sistemas que se tornaram desatualizados. A simples troca de sistemas antigos com acabamento de vidro por outros novos, sustentáveis e eficientes pode fazer uma grande diferença na pegada ecológica e na classificação de eficiência energética de um projeto arquitetônico.

Por exemplo, a transformação de habitações sociais em Bordeaux e Paris pelo escritório francês Lacaton & Vassal, Frédéric Druot e Christophe Hutin mostra como os efeitos desse processo podem ser poderosos e duradouros. Os arquitetos explicam que “a transformação confere a todas as habitações novas qualidades de espaço e vivência, ao inventariar muito precisamente as qualidades existentes que devem ser preservadas e o que falta e deve ser complementado.” Os fabricantes Glassolutions, da Saint-Gobain em Coutras, forneceram o vidro para os elevadores externos totalmente envidraçados.

 

2. Remanufatura

Remanufatura - também conhecida como "manufatura com valor agregado" refere-se à reconstrução de um produto de acordo com as especificações do produto manufaturado original, usando uma combinação de peças reutilizadas, reparadas e novas. Requer o reparo ou substituição de componentes e módulos desgastados ou obsoletos. Muitas empresas estão começando a buscar ideias de remanufatura, especialmente nos setores automotivo e de construção, onde maquinários e materiais com grandes sistemas de manufatura podem ser recuperados e reutilizados para reduzir o impacto ambiental. Por exemplo, a madeira remanufaturada pode ser facilmente usada para estruturas, acabamentos e outras operações de valor agregado dentro de um projeto construído.

 

3. Fabricação Cradle-to-Cradle

Design Cradle to Cradle (também conhecido como 2CC2, C2C, do berço ao berço ou design regenerativo) é uma abordagem biomimética para o design de produtos e sistemas que modela as indústrias humanas nos processos da natureza, onde os materiais são vistos como nutrientes circulando em metabolismos saudáveis e seguros. A ideia foi profundamente explorada e trazida à tona pelo arquiteto William McDonough em seu livro de 2002 "Cradle to Cradle: Remaking the Way We Make Things." Desde então, as ideias de McDonough se firmaram nas áreas de ética de construção e design em geral.

O fabricante de pisos Desso foi um dos pioneiros na abordagem Cradle-to-Cradle. A empresa continua a inovar em torno dos princípios da economia circular, desenvolvendo programas de devolução e produtos com fios recicláveis que podem ser separados do forro e usados repetidamente. Ao usar eletricidade hidrelétrica 100% renovável em todos os estágios da fabricação de carpetes, bem como trabalhar no desenvolvimento de bases de materiais biodegradáveis para seus carpetes, como subprodutos de milho e fios de bambu, a Desso é um grande exemplo da aplicação prática dos princípios C2C em projeto arquitetônico.

 

4. Isolamento de lã de vidro

A lã de vidro é um material isolante feito de fibras minúsculas de vidro, dispostas com um aglutinante em uma textura semelhante à lã. O processo retém muitas pequenas bolsas de ar entre o vidro e essas pequenas bolsas de ar resultam em altas propriedades de isolamento térmico. A lã de vidro é produzida em rolos ou placas, com diferentes propriedades térmicas e mecânicas. A ISOVER da Saint-Gobain, por exemplo, produz isolantes em lã de vidro eficientes em termos energéticos e sustentável.

A lã de vidro ISOVER usa uma alta porcentagem de vidro reciclado - até 70% (e em média mais de 50%) e é totalmente reciclável com um baixo CO2 por desempenho de isolamento. Outros benefícios incluem a redução do volume de embalagem devido à alta compressão do produto, a leveza do produto que lhe permite caber muito bem em construções leves, fácil desmontagem (instalação em sistemas sem cola) e serviços de reciclagem oferecidos em diversos países.

 

5. Pay-Per-Lux

Vários novos modelos de negócios colaborativos surgiram nos últimos anos com o objetivo de aproveitar o excesso de capacidade que pode ser encontrado em muitos setores. Com essas ideias em mente, um projeto desenvolvido entre Thomas Rau e a Philips procurou projetar o excesso de capacidade desde o início, vendendo luz como um serviço. O conceito 'Pay per Lux' consiste em fornecer a quantidade exata de luz para os espaços de trabalho e salas de que os funcionários precisam ao usá-los para tarefas específicas - com custos de manutenção incluídos. Sempre que for necessário alterar a iluminação, a Philips pode adaptar o sistema existente aos desejos do cliente ou simplesmente recuperar os seus materiais e reciclá-los através do LightRec (parceiro da Philips responsável pela reutilização dos componentes de iluminação). A gestão eficaz dos sistemas resultou em uma redução total de energia de 55% - 35% como resultado da instalação de LED, bem como outros 20% através do processo de otimização da Philips.

 

6. Reutilização de móveis

Só nos Estados Unidos, 15 milhões de toneladas de móveis são desperdiçados anualmente e apenas 2% são recuperados para reciclagem. Ao mesmo tempo, a cada ano em uma cidade como Nova York, 250 mil pessoas se mudam de ou para ali. O potencial real no mercado de móveis usados foi estimado em U$ 10 bilhões por ano. Alpay Koralturk fundou a Furnishare (agora Kaiyo) em 2014, após uma série de mudanças frustrantes, tendo que vender e comprar móveis todas as vezes.

Cansado do desperdício e da qualidade baixa dos móveis causados por este modelo linear de produção e consumo, Koralturk patenteou o modelo Kaiyo no qual vários componentes giram em torno de um conceito central: manter móveis de alta qualidade em uso, criando assim valor adicional para os anteriores proprietários e opções de acesso mais flexíveis para futuros compradores. O modelo dá às pessoas a chance de monetizar um ativo pesado ou subutilizado, em vez de simplesmente descartá-lo, um processo que pode custar dinheiro. Quando os itens são devolvidos à Kaiyo após o período de locação, eles são reparados, limpos e reintroduzidos no mercado.

 

7. Modularidade

A demanda por móveis de escritório está crescendo rapidamente - em 2024 o tamanho da indústria será estimado em 100 bilhões de dólares (USD). A fabricação de móveis de escritório requer muitos materiais e energia, e 80-90% desses valiosos recursos são perdidos após um curto período de uso. Ahrend, uma empresa holandesa de design de espaços de trabalho, oferece aos seus clientes móveis como serviço (furniture-as-a-service - FAAS), onde os clientes pagam uma taxa mensal e devolvem os móveis quando não precisam mais deles.

"Furniture as a Service é uma assinatura na forma de arrendamento operacional. Isso significa que Ahrend continua sendo o dono dos móveis e você paga apenas pelo período de uso do produto. Assim, você mantém seu capital de giro disponível para sua atividade principal e nunca pague muito porque você paga apenas o que está usando ", disse o ex-vice-presidente sênior de Ahrend, Peter Veer.

 

8. As possibilidades do Concreto reforçado com vidro pós-consumo

Concreto reforçado com vidro (Glass Reinforced Concrete - GRC) compreende fibras de vidro de alta resistência a cargas e a álcalis que são incorporadas em uma matriz de concreto. Essas fibras atuam como o principal componente de transporte de cargas estruturais, enquanto a matriz circundante as mantém em posição e transfere cargas entre as fibras. Tanto as fibras quanto a matriz são boas em reter suas identidades físicas e químicas, combinando essas propriedades para criar um composto de alto desempenho. Isso difere do concreto pré-moldado tradicional, que usa o aço como principal elemento de carga. Embora isso funcione bem a médio prazo, todos sabemos que o aço tem tendência a sofrer corrosão, levando a possíveis problemas estruturais em algumas décadas. As fibras de vidro não enferrujam.

A tendência para a construção sustentável e a economia circular é uma grande influência no clima atual da arquitetura - e a nova geração de GRC leve é definitivamente um bloco de construção chave desse movimento. Testes recentes mostram que o GRC é agora visto como um material de construção com eficiência energética, capaz de atingir uma classificação de material BREEAM A+. O Rieder Group é uma empresa austríaca que oferece produtos GRC a partir de materiais brutos e naturais. Os painéis de concreto reforçado com fibra de vidro são incombustíveis, sustentáveis e duráveis. Eles podem ser fixados visivelmente ou escondidos em uma subestrutura de metal e tingidos com pigmentos de cor natural.

 

9. Edifícios Circulares

“Temos um problema de materiais nos lugares errados” é uma frase muito citada do pioneiro do Cradle to Cradle, William McDonough. Na verdade, a maioria dos recursos encontrados nos produtos são simplesmente "usados", em vez de "esgotados". Os próprios materiais ainda estão por aí, mas frequentemente são difíceis de coletar e recuperar ou não podem ser agregados de uma forma que torne sua coleta viável.

Villa Welpeloo é uma casa e estúdio de arte projetada e construída em 2005 pela Superuse Studios. Embora a casa seja certamente impressionante do ponto de vista arquitetônico, há duas características em sua criação que a tornam especialmente notável. Em primeiro lugar, 60% da casa é composta de materiais recuperados da região, e Superuse empregou uma estratégia nova, mas acessível, para encontrar essa matéria-prima. “Conversamos com pessoas que têm acesso a fluxos de resíduos - o Google Earth nos ajuda a identificar estoques de resíduos em zonas industriais", explica Jan Jongert, arquiteto e chefe de pesquisa do Superuse Studios.

O aço era obtido a partir de maquinários anteriormente usados na produção têxtil, uma indústria que já foi proeminente na região de Enschede, na Holanda, onde a casa está localizada. A madeira utilizada na fachada foi retirada de 200 bobinas de cabos danificadas, o que gerou peças de tamanho e formato uniformes. Essa madeira tradicionalmente seria transformada em aglomerado (ou pior, acabaria sendo incinerada), reduzindo efetivamente a utilidade do material. O desejo de salvar também fez com que o processo de design fosse conduzido em paralelo com o processo de materialização. A estratégia de "superuso" para mudar o desempenho de um material não foi apenas adotada como o nome da própria empresa, mas também foi pesquisada e usada em cerca de 90% de seus 180 projetos.

 

10. Passaportes de produto

A indústria naval depende atualmente de duas commodities em particular - combustível e aço, com o aço representando cerca de 98% do volume médio de um navio de contêineres. Em resposta à volatilidade dos preços do aço e do combustível, a Maersk desenvolveu um "Passaporte Cradle to Cradle". O Passaporte, o primeiro para o setor de transporte marítimo, compreende um banco de dados online para criar um inventário detalhado que pode ser usado para identificar e reciclar os componentes do navio com uma qualidade mais alta do que nunca.

Como resultado, os materiais - incluindo as 60.000 toneladas de aço por navio - podem ser classificados e processados de forma mais eficaz, mantendo suas propriedades inerentes e, com sorte, alcançando um preço melhor quando revendidos.

Uma vez que a indústria da construção depende fortemente do transporte global de materiais e produtos, um sistema como o "Passaporte C2C" pode fazer uma grande diferença na pegada geral de cada projeto, do início ao fim.

 

Bartolini, Olivia. "Fim do desperdício: dez maneiras de incorporar a economia circular em um projeto arquitetônico" [No More Waste: 10 Ways to Incorporate the Circular Economy into an Architectural Project] 21 Jun 2021. ArchDaily Brasil. (Trad. Souza, Eduardo)

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