Um PIB menor no curto prazo não altera a confiança no Brasil

O engenheiro francês Benoit d'Iribarne, 52 anos, chegou a São Paulo em fevereiro de 2012 para presidir a unidade brasileira da Saint-Gobain, cujas marcas mais conhecidas são Telhanorte, Brasilit e Quartzolit

O grupo faturou US$ 60 bilhões no ano passado, sendo US$ 3,2 bilhões no Brasil. Embora não tenha ainda desfrutado de nenhum “pibão” no País, o executivo está otimista. “O crescimento está mudando. É mais estrutural, puxado pelo investimento”, diz d’Iribarne, que também preside a Câmara de Comércio França-Brasil, com 800 associados. Em entrevista à DINHEIRO, d’Iribarne só se esquivou de dizer para quem torcerá na Copa.

DINHEIRO – Qual foi a reação da matriz francesa da Saint-Gobain à alta de apenas 0,6% do PIB brasileiro no primeiro trimestre? O que o sr. disse para eles?
BENOIT D’IRIBARNE – Eu disse que agora o crescimento brasileiro está mudando. Trata-se de um crescimento mais estrutural, puxado pelo investimento. Isso é uma boa notícia. É fundamental para o País resolver os gargalos da infraestrutura, e que a indústria acompanhe o PIB. É só uma questão de paciência, pois o Brasil vai crescer neste ano mais do que no ano passado e 2014 será melhor que 2013.
 
DINHEIRO – Mas houve decepção na matriz?
D’IRIBARNE – Sim, é um crescimento um pouco devagar demais, mas na direção certa. De fato, o consumo veio baixo, mas não adianta imprimir dinheiro e incentivar a compra de produtos chineses. Isso não traz nenhum fruto para o futuro do País. Prefiro o crescimento ancorado no investimento.
 
DINHEIRO – O Brasil não é mais o queridinho do mercado?
D’IRIBARNE – No passado recente, houve um entusiasmo um pouco exagerado com o Brasil. Pensava-se que o País cresceria 7% todos os anos, mas essa não foi a realidade, nem no governo FHC nem no governo Lula. Hoje, sabemos que há entraves para esse crescimento. Dinheiro existe, tanto no setor público quanto no privado, mas a máquina não está pronta para crescer. Temos enorme possibilidade de melhorar no médio e no longo prazo, mas a velocidade é menor. Creio ser melhor que o Brasil cresça menos, de forma sustentável, do que numa velocidade chinesa sem sustentabilidade. Estamos confiantes no futuro e conheço muitas empresas francesas que querem investir aqui, apesar da decepção com os números da economia. Um PIB menor no curto prazo não altera a nossa confiança no Brasil.

DINHEIRO – Qual é o atrativo do Brasil?
D’IRIBARNE – Sem dúvida, o tamanho do mercado interno é uma coisa importante. Mas não é só isso. Há mercado estável, com regras, sem risco. Na Ásia, por exemplo, há mercados maiores, mas que têm risco jurídico, econômico e político muito maior. Apesar de o Brasil ainda ter muitas coisas para serem feitas, aqui é uma democracia, com estrutura jurídica estável. Isso é fundamental para quem decide fazer investimento no longo prazo.
 
DINHEIRO – Há um senso comum de que é difícil fazer negócios no Brasil. O que podemos aprender com a França?
D’IRIBARNE – Uma coisa que funciona bem na França e que o Brasil está descobrindo é a parceria público-privada. O Estado não tem a competência gerencial para fazer negócios. Há muita burocracia e pouca competitividade. O BNDES, por exemplo, é excelente para as empresas, mas o processo para obtenção de um financiamento é muito burocrático. Isso poderia ser simplificado. Estamos aqui há 75 anos e ainda nos pedem uma montanha de papéis.
 
DINHEIRO – Na questão da infraestrutura, o ideal é deixar tudo na mão da iniciativa privada?
D’IRIBARNE – Não. É necessário ter o governo dando as diretrizes de longo prazo, enquanto a iniciativa privada investe e executa. Se deixar tudo na mão da iniciativa privada, há um enorme risco, pois o empresariado gosta de ver resultados no curto prazo. Portanto, no cenário ideal, o governo planeja e regula, e a iniciativa privada faz acontecer. A França trabalha a infraestrutura há 30 anos, e o Brasil não vai resolver tudo em um ano. Mas tem de acordar logo e começar a fazer.
 
DINHEIRO – Diante dos recentes anúncios do governo, agora vai?
D’IRIBARNE – No começo, o governo brasileiro foi muito cauteloso e queria sempre ter um braço estatal nos projetos. Além disso, queria estabelecer um teto para o retorno dos investimentos. Acho que agora essa posição está mudando. Nós tivemos, recentemente, um encontro na Câmara de Comércio França-Brasil com a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, e ficou clara essa mudança de postura. Não devemos perder tempo discutindo se o retorno dos projetos é de 7,2% ou 6,9%. Temos de abrir espaço para o mercado definir a taxa de retorno através dos leilões.
 
DINHEIRO – O sr. aprova a elevação dos juros pelo Banco Central (BC)?
D’IRIBARNE – O papel do Banco Central é controlar a inflação. Então, nesse sentido, elevar os juros foi uma boa notícia. A prioridade dele não é o PIB. No governo, cada um deve cuidar da sua área. A inflação estava exagerada e o BC tinha de tomar providências.
 
DINHEIRO – Mas isso não atrapalha o desempenho do PIB?
D’IRIBARNE – A dificuldade do crescimento não é o juro, mas os gargalos da economia. Hoje, não se faz uma nova fábrica se não há possibilidade de transportar a produção ou exportá-la. Veja as filas de caminhões em direção ao porto de Santos.
 
DINHEIRO – O sr. aprova a recente desvalorização do câmbio?
D’IRIBARNE – Sim, vai ajudar a exportação, embora possa afetar um pouco a inflação. O sonho da indústria brasileira é um câmbio de R$ 2,40. Portanto, R$ 2,00 é melhor do que o R$ 1,60 que tínhamos no ano passado. O importante é ser um movimento suave para não afetar a inflação. Tenho a impressão de que o câmbio está mudando na direção certa, mas não sou especialista para dizer se a velocidade é a adequada. Estou convencido de que o câmbio vai a R$ 2,20, o que ajudará na competitividade do Brasil.
 
DINHEIRO – O que mais pode ser feito para aumentar a competitividade brasileira?
D’IRIBARNE – A solução é melhorar a produtividade, pois hoje temos um desemprego baixo e uma pressão sobre os custos das empresas. A produtividade na indústria e no comércio é péssima, mas isso pode ser uma boa notícia se você considerar o potencial enorme que existe para melhorar.
 
DINHEIRO – Como resolver a falta de mão de obra qualificada?
D’IRIBARNE – O Brasil precisa aceitar um pouco mais de imigração de profissionais qualificados, como engenheiros, por exemplo. A política do Brasil ainda não está tão avançada nesse sentido, ainda não há facilidades na atração de pessoas que serão fundamentais para acelerar o desenvolvimento do País. Há muito lobby em Brasília contra isso.
 
DINHEIRO – O profissional brasileiro é menos qualificado que o europeu?
D’IRIBARNE – Não. Temos engenheiros brasileiros com a mesma qualidade dos engenheiros alemães. Não é questão de nacionalidade, mas aqui falta quantidade de bons profissionais. Nesse caso, não tem jeito. A empresa tem de treinar seus funcionários para compensar a qualidade ruim da educação.
 
DINHEIRO – A redução no preço de energia já trouxe um alívio para a Saint-Gobain?
D’IRIBARNE – O governo deu um passo na direção certa com a redução de 20% na tarifa de energia, mas a seca o obrigou a acionar térmicas e a importar gás. Isso vai correr uma parte desse ganho. O desafio maior é o preço do gás. Aqui pagamos US$ 14 por milhão de BTU, enquanto nos Estados Unidos custa apenas US$ 4 e no México, US$ 8. Não sonho com o preço dos Estados Unidos, mas nós deveríamos almejar pagar o mesmo que no México.
 
DINHEIRO – O sr. também é responsável por outros mercados na América do Sul. Como é lidar com situações econômicas tão díspares, como a do Chile e a da Argentina?
D’IRIBARNE – O crescimento no Chile, de fato, é motivo de elogio, mas a verdade é que se trata de um país pequeno, que equivale à metade do Estado de São Paulo. O diferencial deles é ter muita matéria-prima, mas eles carecem de indústrias. Não dá para importar as soluções do Chile para o Brasil. Já a Argentina é muito mais complicada. Há controle de preços, diferentes índices de inflação, três taxas de câmbio, etc. Costumo dizer que no Brasil é preciso esperar um pouco para que a economia deslanche. Na França, um pouco mais. Já na Argentina, é necessário muito mais paciência, esperar 20 anos. Apesar da situação política complicada, no longo prazo vai dar certo e por isso nós temos investimentos lá.
 
DINHEIRO – Em qual setor a Saint-Gobain vê as melhores oportunidades no mercado brasileiro?
D’IRIBARNE – Na construção civil, sem dúvida.
 
DINHEIRO – Há algum risco de bolha imobiliária?
D’IRIBARNE – Não vejo uma grande bolha. Temos déficit habitacional de oito milhões de residências e a necessidade de mais 1,5 milhão de casas todos os anos. Há apenas casos isolados de prédios no Rio de Janeiro e em São Paulo que são muitos caros, uma espécie de microbolha, mas nada além disso.
 
DINHEIRO – O custo de vida em São Paulo está maior do que em Paris?
D’IRIBARNE – De forma alguma. Isso é um exagero da mídia. O preço do metro quadrado em Paris é quatro vezes maior do que em São Paulo. O transporte público também é mais caro lá. Na questão dos restaurantes, há lugares caríssimos tanto em Paris quanto em São Paulo. A diferença, talvez, é que a renda per capita lá ainda é maior.
 
DINHEIRO – Para quem o sr. vai torcer na Copa do Mundo, no ano que vem?
D’IRIBARNE – (silêncio) A França ainda não está classificada para a Copa.

 

Fonte: IstoÉ Dinheiro

12 junho 2013

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